HISTÓRIA

Uma breve história da gravura até os dias de hoje

Prêmio Ibema Gravura - História
"Adão e Eva", gravura, 1504. Albert Dürer.

Quando Buda andou pela terra pregando a paz e o caminho do equilíbrio, ele nem imaginava que sua mensagem seria responsável pela criação de uma tecnologia cuja repercussão impulsionou de tal forma a difusão das idéias e do conhecimento que acabou contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento da civilização.

Foi para difundir a mensagem do Buda que os monges budistas radicados na China desenvolveram a xilogravura, técnica de impressão que utiliza blocos de madeira entalhados para servir como matriz de impressão. Estes monges precisavam de um número muito maior de cópias dos textos sagrados com orações que deveriam ser lidas pelos discípulos. Esses textos, até então copiados a mão passaram a ser impressos em xilogravura a partir do século VII, promovendo a difusão do budismo naquela região.

A xilogravura foi a primeira forma de impressão desenvolvida pelo homem e seu procedimento básico, que consiste em gravar uma matriz, entintá-la e pressioná-la sobre uma folha de suporte, ainda permanece até os dias atuais inalterado em sua essência.

Da China, a impressão chegou à Coréia por volta do ano 700 e a partir dali foi introduzida no Japão também por monges budistas em meados do século XI. Assim, o budismo e a difusão de sua mensagem fizeram a xilogravura chegar ao Japão, onde se desenvolveu posteriormente uma das mais elegantes e sofisticadas formas artísticas que a gravura veio a alcançar.

Contribuiu decididamente para o desenvolvimento da gravura, o surgimento do papel, produzido na China a partir do século II antes de Cristo. A existência do papel foi mantida em segredo pelos chineses até o ano 751, quando na batalha de Samarcanda os árabes conseguiram capturar prisioneiros que os ensinaram a fabricar papel. Por sua vez, os árabes também mantiveram o segredo até o século XII quando iniciaram a fabricação de papel na Espanha, então sob o domínio Mouro. Da Espanha, o segredo seguiu para a Itália, onde na cidade de Fabriano foi instalada uma fábrica de papel em 1276.

Além do papel, foi fundamental, para o desenvolvimento das técnicas de impressão, a criação da escrita, iniciada pelos sumérios na Mesopotâmia (atual Iraque) a cerca de 3000 anos a.C. A escrita foi desenvolvida na China mil anos depois na forma de pictogramas ou símbolos simplificados e foram estes símbolos que os monges budisdas gravaram nos primeiros blocos de madeira, criando a xilogravura. A combinação da escrita e do papel com a xilogravura deu forma ao mais antigo livro conhecido, a Sutra Diamante que contém textos sagrados do budismo e foi impresso no ano 868.

A impressão com blocos de madeira chegou à Europa pela mesma rota do papel e, embora seu início não seja preciso, sabe-se que a partir do século XIV desenhos figurativos e rudimentares e cartas de baralho começaram a ser impressos neste continente. No início do século XV, imagens acompanhadas de textos gravados na mesma prancha, constituindo páginas, deram origem aos primeiros livros xilográficos.

Em meados do século XV a xilogravura ocidental já havia alcançado a expressão artística. Uma imagem de Santa Doroteia, pertencente ao acervo do Museu de Munique, datada de 1420, demonstra as características que ela apresentaria como forma de arte.

Depois disso, com a participação de ourives e artesãos da metalurgia, que conheciam bem as técnicas, começam a aparecer as primeiras gravuras em metal feitas com chapa de cobre gravada com buril. A Tentação de Santo Antão, obra de Martin Schongauer (1480-1490), é um exemplar importante e representativo dos primórdios da gravura em metal. Nesta mesma época outro autor, provavelmente holandês, conhecido apenas como Mestre do Hausbush, produziu uma cena da Sagrada Família utilizando a técnica da ponta seca, onde no lugar do buril, se utiliza uma ponta tipo agulha que produz um traço bem fino. Schongauer é considerado o maior gravador deste período, encontrando apenas um rival a sua altura: o artista alemão Albrecht Dürer (1471-1528) cuja obra em xilogravura é considerada a expressão artística de mais alto nível que este gênero alcançou.

Prêmio Ibema Gravura - História
"A Divina Comédia", 1865, gravura a buril. Gustave Doré.

Com o desenvolvimento da impressão comercial, a gravação em metal substituiu a xilogravura que acabou voltando-se cada vez mais para formas de expressão puramente artísticas, como ocorreu do Japão nos séculos XVII e XVIII, onde a xilogravura que havia chegado a este país no século XI veio a alcançar neste período um alto padrão estético. Influenciados pela pintura chinesa da dinastia Ming e incorporando cores e nuances antes nunca vistas, os mestres gravadores japoneses desenvolveram um estilo de gravura que se tornaria célebre. A gravura japonesa, através do trabalho de seus principais expoentes: Hokusai, Utamaro e Hiroshige, foi muito longe, levando a arte que antes era acessível apenas à nobreza e à aristocracia a alcançar um número muito maior de pessoas, a ser vista em muitos lugares e a tornar-se extremamente popular. Chamadas Ukiyo-e ou “estampas do mundo que flui”, estas gravuras exerceram grande influência sobre os pintores impressionistas, contribuindo para o intercâmbio cultural e artístic oriente/ocidente.

Artistas como Van Gogh e Gauguin reverenciaram a gravura japonesa em seus quadros e textos, fazendo com que ela fosse reconhecida pelos estudiosos e incorporada ao acervo dos principais museus do mundo.

No final do século XVIII a gravura continuava sua saga desenvolvendo novas técnicas. A litografia (impressão com matrizes de pedra polida) introduziu uma nova forma de se obter uma estampa. Esta forma de expressão artística teve em Toulouse-Lautrec um dos seus expoentes.

A Serigrafia é outra técnica de impressão que foi adotada pelos artistas no século XX. A Pop Art, movimento artístico que ocorreu nos Estados Unidos por volta de 1960 adotou esta técnica onde pontificou Andy Warhol, que soube obter resultados surpreendentes utilizando a serigrafia para imprimir sobre telas rostos de estrelas famosas como Marylin Monroe. A serigrafia é também conhecida como “silk screen”.

Brasil, a tipografia e a gravura estiveram proibidas pela coroa portuguesa durante todo o período colonial, tendo seu início oficialmente registrado a partir de 1808, quando foi instalada no Rio de janeiro a Imprensa Régia. Neste período foi instalada no Jardim Botânico, também no Rio de Janeiro, a Academia Real de Desenho/Pintura/Escultura e Arquitetura que incentivou o desenvolvimento da gravura e das demais artes em nosso país. A gravura moderna no Brasil conta com grandes artistas que a ela se dedicaram: Lazar Segall, Oswaldo Goeldi e Lívio Abramo se destacam na xilogravura enquanto Marcelo Grassmann, Fayga Ostrower, e um grande números de artistas de renome utilizaram várias técnicas para formar um amplo acervo que hoje pode ser visto nos mais importantes museus e galerias de arte do país. Outra expressão da gravura brasileira que alcançou reconhecimento por seu valor é a xilogravura de cordel que acabou alcançando uma expressão própria e muito particular como manifestação autêntica da cultura popular.

Hoje o ensino da gravura no Brasil integra o programa de cursos de artes visuais, design e artes gráficas, que ajuda a manter viva essa forma de arte.

Artistas contemporâneos se dedicam a gravura, incluindo-a em seu roll de atividades devido sua expressividade e possibilidades estéticas, mas também por se sentirem atraídos por sua história e pela presença que ela teve na vida de grandes artistas como Dürer, Matisse e Picasso, entre tantos outros.

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